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Algumas más notícias e uma boa

Primeiro, as más.

Via António Granado:

A SITUAÇÂO a que o jornal Público foi conduzido nos últimos meses culmina com o despedimento colectivo de 48 trabalhadores. Para já, porque com menos 36 jornalistas o jornal só pode piorar e afundar-se ainda mais…

Leiam o resto emPúblico despede 48 trabalhadores

Depois, uma análise do Pedro Fonseca sobre  a evolução, ou o seu oposto, da imprensa em Portugal desde 2005:

Esta é a imagem de alguma da imprensa de referência em Portugal, desde 2005, usando os dados da APCT, do Netscope e da Anacom (para acessos em banda larga fixa, porque a móvel foi distorcida com os Magalhães). Lá em baixo está o papel, os saltos ascendentes são os acessos online:

(…)

2) O online impôs-se mas os olhares ainda estão fixos no papel. Tudo bem, é uma opção. Mas, pelo menos, olhem para a distribuição.É impensável um negócio com um tão grande número de sobras. Se um fabricante automóvel produzisse 100 mil veículos todos os dias para deitar fora 30 mil, alguém acreditava num seu futuro viável?

Mais claro do que isto não se pode ser.

E agora, as boas:

o P3, o Jornal de Leiria e o i receberam prémios de melhor design jornalístico da Península Ibérica.

Escrevi sobre o P3 o ano passado, e como conheço quase toda a gente naquela redacção, envio-lhes especialmente os meus parabéns por terem o projecto jornalístico mais interessante do país. E têm pouco mais de um ano.

Tirando as boas notícias, sinceramente estou-me nas tintas. O que se passa no jornalismo de imprensa em Portugal é o resultado de gestões cegas, estratégias erradas, e falta de visão. Não se podem queixar de falta de avisos. Essa guerra já não é a minha, felizmente, cansei-me de melhorar o que não me pertencia e durante uns tempos não vou andar preocupado com o “jornalismo” que se faz por aí.

Como fazer melhores conteúdos interactivos e multimédia, isso é o que me interessa. E não preciso de ser jornalista para os fazer. Se calhar para algumas pessoas esta é a boa notícia. Boa noite e boa sorte.

Jornal Público acaba com a edição em papel (o de Espanha)

Depois de ter sido lançado em Setembro de 2007, o jornal Público (de Espanha, não confundir com o nosso) termina com a sua edição em papel.

Há um ano  tinha uma tiragem média de 90 mil exemplares, longe dos quase 425 mil do líder El País.

De acordo com o artigo publicado no site do jornal, a edição online continuará para servir os cerca de 5,5 milhões de utilizadores.

Los trabajadores decidirán en asamblea cuando se publica el último número, aunque como máximo podrá salir a la calle hasta el próximo domingo 26. Esta medida no afecta a la edición digital que continuará con su actividad. Público.es tiene más de 5,5 millones de usuarios únicos, que la sitúan como la cuarta web de información general en España, según los datos de OJD.

O blog 233grados recolheu algumas reacções no Twitter.

[blackbirdpie url=”https://twitter.com/#!/iescolar/statuses/173004488720908288″]

Apesar das manifestações de apoio, o jornal vai ter que despedir parte dos seus 160 trabalhadores. O Público tranformou-se num jornal de referência na sociedade espanhola, com a sua linha humanista e interventiva e aposta no jornalismo de qualidade.  Seria de esperar que em tempo de crise a sua voz fosse mais forte,  mas talvez por esta crise ser particular perdeu o seu espaço e a sua viabilidade económica.

Segue online e vamos ver o que o futuro lhes reserva. Cliquem na imagem abaixo para ler o manifesto de apoio ao jornal.

E em Portugal? Haverá encerramentos em breve?

The news website of the future? New portuguese project P3 presents bold layout

P3 is the name of a youth oriented news website, under the umbrella of Público, one of the reference news brands in Portugal. With a small team they tried to create a new concept that affects not only the design but also the relationship with users and functionality. They premiered around midnight this 22nd of September, and it looks really great.

I already had a sneak preview back in June and I should say I was looking forward for them to come out. Few times a new news website can be looked as a milestone in the industry, but I truly believe this is going to be one of those moments. I wish only the best to the team, where I have some friends.

Explore the website and share your thoughts about the look and feel of the layout.

 

More news about P3 soon.

Social Healing?

I wrote about the importance of “social journalism” a few days ago, but probably I really didn’t get to the point. But a random piece of information made it a bit more clear for me: Público, one of the reference dailies in Portugal, has more friends on Facebook than circulating copies out in any given day. Ok, they’re not really friends, it’s the number of people who like their Facebook page, just 43 thousand of them. Not bad for a paper that sells around 35 thousand copies a day. Oh and it’s the most popular newspaper online (if we cut the sports newspapers).

So, what’s the meaning of this? In a brief conversation over Twitter with Armando Alves (@armandoalves), a digital media and web strategist, he pointed out what we should be really looking for:

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And he’s right when he said that that specific snippet of info means only that a lot of people clicked on a “Like” button. But I also think that Público, like other papers, has a personality that appeals to a specific type of readers. It’s been always a well educated newspaper, if you wanted to look smart and creative 15 years ago you had to buy it everyday. Now you just have to push the Like button on your Mac laptop. This means there’s a specific target audience, and it’s more online than buying paper, and they’re going to the website from the posts and shares in social networks. Does this call for new strategies? Definitely.

There are tools willing to deal with this new reality, like the Readness Chrome add-on. It gives you a bit of serendipity and peer recommendation with a social twist. Are we ever going to look at a news website frontpage ever again? Is the news industry in the need for some social healing? Your answers are welcome in the comment box.

António Granado sai do Público

Não estou minimamente surpreendido, mas talvez não esperasse que fosse já. António Granado anunciou a sua saída do Público onde exercia as funções de editor do online. Um dos jornais de referência portugueses perde uma das maiores referências na área. Do que sei neste momento sobre o Público é que tem muita gente de valor, mas que está sob uma estratégia que creio que se revelará danosa num curto espaço de tempo. Quero ver quem é que aproveita o facto do António estar livre…

Aqui fica uma entrevista que lhe fiz no final de 2007. Ainda se mantém actual.

António Granado em entrevista (novembro 2007)

António Granado é o editor da edição online do jornal Público. Eles têm estado sempre na vanguarda das novas tecnologias, e recentemente criaram uma equipa de vídeo e fizeram uma renovação gráfica no site do jornal.
Nesta pequena entrevista falámos com um ocupadíssimo António Granado sobre as suas perspectivas sobre o jornalismo online, um assunto de que ele trata no seu blog PontoMedia. António Granado dá também aulas na Universidade nova de Lisboa, e é uma das principais vozes em Portugal na discussão dos novos media.

Qual é a situação do jornalismo online em Portugal? Existe?

O jornalismo online em Portugal está a dar os seus primeiros passos. O investimento nesta área ainda é residual e os média começam agora a olhar com outros olhos para as possibilidades que a Internet lhes abre.

O Público foi o primeiro jornal de referência a investir na sua presença na Internet. Que mudanças é que estão a decorrer ao nível do jornalismo digital?

O PÚBLICO estreia hoje (19 de Novembro) vídeos no seu website e criou uma equipa de cinco pessoas para os fazer. Vamos alterar também a nossa homepage para dar destaque aos vídeos e passaremos a apostar mais nas imagens e nas infografias. O canal de Economia passou a ser assegurado em permanência pelos jornalistas da Economia, um primeiro passo para a necessária mudança no sentido correcto.

Que tipo de público é que lê a edição online do jornal?

Não temos estudos que nos permitam perceber quem são exactamente os leitores do Público.pt. Qualquer coisa que eu dissesse, estava apenas dar opiniões e não a apresentar factos.

Como professor, acha que preparação dada aos alunos de Jornalismo nas Universidades tem em conta as novas realidades?

É evidente que a maioria das universidades não está a preparar os estudantes para as novas realidades. A título de exemplo, ainda se faz uma divisão entre o ensino do jornalismo escrito, radiofónico e televisivo, uma aproximação tipo século XX, já desactualizada.

Os jornalistas portugueses, no geral, estão preparados para os novos media?

Os jornalistas portugueses não estão preparados para os novos média, porque os novos média estão a entrar muito devagar nas redacções e, às vezes, da pior maneira. É preciso treinar os jornalistas para as tarefas que o novo jornalismo exige, é preciso fazê-lo com o apoio dos jornalistas e não contra eles. Em muitos sítios isto não está a ser feito.

Há já um jornalismo de participação, ou citizen journalism em Portugal?

Penso que não há ainda jornalismo participativo em Portugal.

Há alguns anos atrás houve quem dissesse que não havia futuro nas publicações online. Este ano o director do El País disse que se abrisse o jornal agora seria apenas na versão digital. Que tipo de mentalidade existe no mercado editorial português e o que é preciso mudar?

A mentalidade é retrógrada. Há ainda muito medo do digital. Não se põem notícias online para não “queimar” as cachas do papel, não se investe no multimédia porque, no fundo, as pessoas ainda acham que, se calhar, a crise dos jornais não veio para ficar. É preciso mudar a atitude dos gestores perante o multimédia (os pequenos avanços não chegam, é preciso passos muito maiores); é preciso mudar a mentalidade dos responsáveis dos jornais, que não podem continuar a achar que uma notícia dura 24 horas; é preciso mudar a mentalidade dos jornalistas, que têm de perceber que a sua missão principal é informar seja de que forma for e não vender jornais no dia seguinte aos acontecimentos.

Os jornalistas têm uma imagem muito forte de si, talvez comparável à dos médicos, por existir uma noção ou sensação de poder. O que é que acontece a esta imagem do jornalista com a participação do leitor? O jornalismo do cidadão é realmente jornalismo?

O jornalista tem de se habituar à participação dos leitores. Jay Rosen chama-lhes “the people formerly known as the audience”, porque agora podem e querem participar mais no processo noticioso. Os jornalistas têm de perceber esta mudança radical e adaptar-se a ela. O jornalismo cidadão por vezes é, e por vezes não é, jornalismo. Como todos nós sabemos, também há jornalismo que não é jornalismo e que nos envergonha a todos.

Como é o jornalista do futuro?

O jornalista do futuro é alguém que consegue olhar para uma estória e contá-la da forma mais eficaz. Que se preocupa mais com os leitores e não tanto com as suas fontes.

E o leitor do futuro?

O leitor do futuro é o leitor do presente. “Sabe mais do que eu”, como diz Dan Gillmor. Quer e pode participar mais. Não se contenta com texto. Quer as notícias de imediato, na plataforma que está a utilizar e não em qualquer outra que lhe queiram impor.

O cenário do jornalismo online português pode parecer desolador, mas as mudanças são inevitáveis. Os velhos hábitos custam a desaparecer, e a situação em Portugal é igual à de tantos outros países. É um processo lento que precisa de ser feito, como diz o António Granado, “com o apoio dos jornalistas e não contra eles”