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HiperDoc: a revolução digital e as narrativas da realidade

Há uns meses atrás a Rita Alcaire convidou-me para escrever um artigo para um número especial da MACA, associado ao Festival Grande Angular, de documentário e Grande Reportagem.

Como a minha vida são as narrativas digitais, a minha ideia foi transmitir que mudanças o ambiente online trouxe aos documentários, que possibilidades novas de concepção, produção e distribuição existem graças à nova lógica proporcionada por ele.

Espero que gostem e agradeço o vosso feedback.

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Antes da ficção cinematográfica, a imagem em movimento dedicou-se, no seu início, a captar momentos da realidade quotidiana, como nas primeiras experiências dos irmãos Lumiére. Restringidos a um minuto de filme, pouco mais podiam fazer do que pequenos retratos do dia-a-dia, um olhar fragmentado mas animado do mundo que os rodeava. Essa sua contribuição foi decisiva para mudar a forma como o mundo olhava para si mesmo.

Hoje, mais de um século depois, atravessamos uma outra revolução de igual importância e com efeitos ainda mais profundos na nossa relação com o mundo. A internet e o avanço na tecnologia das linguagens digitais vieram criar novos espaços e novos métodos para contar e partilhar histórias não ficcionais, onde a visão pessoal e a independência ganham preponderância, assim como a abertura à participação de um elemento inesperado: o público.

Mas para se perceber o que pode mudar, temos que entender o que já mudou.

A revolução digital

A nossa vida mudou com a internet, e a forma como nos relacionamos com a realidade – a nossa e a partilhada – alterou-se profundamente na última década. Se a Revolução Industrial demorou quase dois séculos a transformar a sociedade e os seus hábitos, a Revolução Digital precisou de menos de duas décadas. Estamos na era da comunicação ubíqua, interactiva, imediata, multimédia, e, acima de tudo, pessoal.

Nunca se criaram e consumiram tantos conteúdos como agora, e grande parte deles são da autoria das “pessoas conhecidas anteriormente como o público”, no conceito disruptivo de Jay Rosen. É uma mudança no poder de criação e distribuição de conteúdos, exponenciado pelo advento das redes sociais, como o Facebook, que está a obrigar várias indústrias a repensar os seus modelos de negócio e os seus métodos de produção: primeiro a indústria discográfica, depois a cinematográfica e, desde o início, a indústria de produção de conteúdos jornalísticos.

O seu lugar como fonte única e a exclusividade na distribuição em grande escala dos seus produtos foram postos em causa pela estrutura da sociedade digital, assente na criação, partilha e redistribuição, e movida pelo espírito de independência e afirmação da individualidade.

O avanço tecnológico e o desenvolvimento dos equipamentos digitais também são uma parte importante desta nova ordem das coisas, como causa, consequência e metrónomo desta (r)evolução. Graças a produtos cada vez mais baratos e com maior qualidade, não só é mais fácil aceder à informação mas também criá-la.

As câmaras digitais – primeiro as fotográficas, depois as de vídeo e entretanto a combinação das duas – atingiram preços tão acessíveis que democratizaram o processo de criação de imagens. Por serem fáceis de utilizar, qualquer pessoa pode fazer o seu próprio registo, e com a entrada em cena de plataformas gratuitas de alojamento de fotos e vídeos, como o Flickr e o YouTube. Um processo que antes exigia um enorme conhecimento técnico e estava apenas ao alcance de alguns tornou-se simples para todos.

Se incluirmos os telemóveis, que podem captar, editar e publicar narrativas visuais, podemos dizer que todo esse poder está, literalmente, na nossa mão. O iPhone é um grande exemplo da capacidade que o objecto, que anteriormente só servia para fazer chamadas, tem nesse campo.

Esta nova lógica e a nova relação entre o utilizador comum com a realidade gerou uma espécie de metanarrativa hiper-real e hiperpessoal, não baseada num reflexo da própria realidade, mas nos estilhaços do espelho que o suportava. Milhões de pedaços do quotidiano, tal como os irmãos Lumiére modestamente fizeram.

Prateado ou de cristal líquido?

O documentário, como formato, veio beneficiar com os meios de reprodução digital. Ao longo da sua evolução histórica, sempre se viu limitado aos parâmetros impostos pelo cinema e pela televisão. Mais recentemente, a visão do documentarista conseguiu ganhar mais alcance e longevidade graças ao DVD, permitindo um maior grau de rentabilidade e reconhecimento de um género que vem ganhando adeptos numa sociedade imersa em narrativas do real e em tempo real. E, pelos pontos apresentados anteriormente, exige custos cada vez mais reduzidos.

O filme documental já não precisa de uma sala de cinema, ou, no limite, de uma sala de estar. Não precisa de se apoiar unicamente numa promoção tradicional, nem de ser distribuído pelos canais estabelecidos. A maior sala de exibição do mundo é o computador pessoal e a máquina de publicidade moderna assenta nas redes sociais e nas recomendações. E o melhor cartaz é o próprio produto.

É ponto assente que é difícil fazer com que os utilizadores paguem por conteúdos online. Isso não significa que não contribuam para que estes sejam criados: merchandising, edições em formato físico com extras exclusivos, sessões especiais, são tudo formas de financiar projectos documentais. Podemos até pedir ao nosso potencial público para contribuir financeiramente para a realização do nosso projecto, aquilo que se chama de crowdfunding.

Existem plataformas dedicadas a esse tipo de financiamento de filmes e há documentaristas a tentar fazê-lo individualmente. Usando as plataformas existentes podemos disponibilizar facilmente o nosso trabalho, e com uma boa utilização das redes sociais, promovê-lo. O documentário, como qualquer conteúdo online hoje em dia, pode ser visto quando o utilizador quiser, onde quiser, na plataforma que quiser, seja num iPad, num telemóvel ou no seu computador. E o melhor de tudo é que não fica escondido numa prateleira, mas continua permanentemente acessível na rede, prolongando a sua vida útil e reforçando o seu valor como documento.

Mas a multidão digital pode fornecer mais do que apoio financeiro. Pode fornecer a história.

O público é o conteúdo

Apesar de se falar muito do projecto A Life in a Day de Ridley Scott e Kevin MacDonald, que pretende juntar contribuições de utilizadores através do YouTube para fazer um filme que mostre pedaços de vida à volta do planeta a 24 de Julho de 2010, houve quem se tivesse antecipado e feito algo dentro dos mesmos moldes. Frank Kelly, um realizador independente irlandês, usou o Twitter (popular plataforma de comunicação para comunicar em 140 caracteres de cada vez) para criar uma longa-metragem que juntasse 140 mini-filmes de 140 segundos cada, e que fossem filmados em sincronia em 140 pontos do mundo por quem quisesse participar.

Em Maio de 2009, ele disse-me que “como um cineasta independente que não tem verba e ainda está a tentar entrar na indústria, a internet é uma ferramenta essencial para continuar a criar trabalho, e conectar-me a pessoas com ideias semelhantes”, permitindo-lhe fazer algo que “teria sido impossível (…) há 10 anos atrás.” Intitulado adequadamente de “140”, o filme já está terminado e tem recebido críticas favoráveis pelo esforço de coordenar estes retratos dispersos que, juntos, dão uma imagem do planeta maior do que a mera soma de todas as partes.

Mesmo na criação de documentários mais tradicionais, a participação do público e a a importância das redes para obter informação são de um valor inquestionável, não fosse a internet o maior arquivo e o maior espaço de comunicação do mundo. Apesar da dimensão desse arquivo ser praticamente infinita, a memória colectiva e as redes pessoais de cada utilizador são ainda recursos ricos que o documentarista pode explorar a uma escala nunca antes vista.

Assim, a posição do criador de documentários, como qualquer outro criador de conteúdos nos nossos dias, altera-se. Não é mais uma relação unidireccional, de um para muitos, mas um processo envolvente, de permanente diálogo.

Crossover

Não foram só a relação com o público, as plataformas e o processo de distribuição que mudaram para quem faz documentários. A própria relação com o assunto, com os sujeitos da história e as linguagens também se alteraram. Com as vantagens que um equipamento mais portátil e discreto permite, a agilidade e discrição na recolha de material audiovisual também aumentou, assim como a facilidade e velocidade de edição.

Novas linguagens e processos de produção foram surgindo graças às novas possibilidades técnicas que as narrativas digitais permitem. É provavelmente a maior mudança de linguagem visual no género desde o surgimento do cinema verité nos anos 1950/1960. Mais conteúdos, menos custos, mais possibilidades de pós-produção e envolvimento de outros formatos inseridos no vídeo de base, abriram tremendas possibilidades criativas para os contadores de histórias reais.

O próprio jornalismo online, para conteúdos de longo formato e de profundidade, apropriou-se do tom documental para narrar as suas histórias. Se olharmos para uma das referências neste campo, o projecto MediaStorm (www.mediastorm.com), podemos ver várias características do documentário presentes nessas narrativas.

Ultrapassam os “limites” do vídeo e usam narrativas eminentemente online como audioslideshows, um formato que usa como suporte o áudio e a fotografia sincronizados. Outra forma de realizar um documentário que está em voga graças ao online e às suas características, e já testada nos moldes tradicionais como nos filmes Baraka e a trilogia Qatsi , são os filmes que exploram um estilo não textual, baseando-se apenas no poder das imagens e da música.

A série “Routines segue este modelo com uma forte componente experimental. Estas novas formas de contar histórias vieram questionar e alargar a própria definição do que um documentário pode ser, na sua forma.

Mesmo a duração de um filme deixou de ter um standard com o online. Muitos documentários, ou filmes que podem cair nessa categoria, não são muito longos: podem durar dois ou 15 minutos, podem ser objectos únicos ou fazer parte de uma série. A liberdade de se poder facilmente abordar qualquer tema e dedicar-lhe o tempo estritamente necessário veio provar que a importância de um assunto, assim como a sua beleza, está no olhar de quem o observa.

Não há histórias, conceitos ou personagens demasiado pobres para serem abordados. O que a Revolução Digital trouxe para as narrativas do real foram processos e espaços para histórias que eram anteriormente negligenciadas ou abandonadas quer pelos meios tradicionais, quer mesmo por aqueles que seriam os únicos a querer contá-las: os documentaristas.

Mas se temos ferramentas, espaço, liberdade para contar essas histórias, é preciso também entender que, como se trata de um ambiente em permanente evolução, o mundo digital e em rede veio trazer outras formas de se fazer documentários, não sendo só a narrativa linear do vídeo a única opção.

O futuro não é linear

Uma das características mais importantes da linguagem multimédia, ou seja, de uma linguagem que engloba meios diferentes, interdependentes, é a interactividade e a possibilidade de cada utilizador seguir o seu próprio caminho na narrativa, em vez de passivamente seguir uma história. Esta leitura define-se como não linear. As implicações destes dois elementos-chave do meio online afectam profundamente a forma como se constroem os documentários do futuro, sendo o futuro agora.

Online, o vídeo pode coexistir com outros formatos e integrar-se com eles. Um documentário pode basear-se numa narrativa assente num mapa, numa linha temporal, ou nas duas coisas em simultâneo, onde os utilizadores navegam por blocos de informação visual, videográfica ou não, numa experiência mais ou menos imersiva de acordo com os seus desejos. O contrário também pode acontecer, com a adição de características interactivas ao próprio vídeo, abrindo um novo mundo de possibilidades para cada elemento dentro de uma história .

E a própria realidade pode ser um suporte para a narrativa documental. Com a implementação de aplicações de realidade aumentada (“Augmented Reality) em dispositivos móveis como os smartphones, os documentários ganham outra tela: o mundo físico, com o trabalho documental super-impondo-se à imagem captada pela lente fotográfica do telemóvel, e usando tecnologias tão diversas como o GPS e o reconhecimento espacial.

O que os documentários podem fazer, assim como outras narrativas assentes em espaços físicos reais, é poder contar uma história quase rua a rua, incluindo passado e futuro na imagem do presente que vemos a olho nu. O futuro do documentário está assim cheio de possibilidades.

A única coisa que não muda é a paixão e a necessidade que movem os documentaristas em fornecer um olhar sobre um determinado aspecto da realidade. Agitadores de consciências por natureza, eles devem olhar para a sociedade digital como um verdadeiro admirável mundo novo, onde o seu trabalho pode atingir públicos e dimensões impensáveis há apenas 30 anos atrás, onde a vida e repercussão dos seus estilhaços narrativos podem cortar fundo e deixar marcas muito tempo depois de terem sido criados. A sua responsabilidade é documentar, e a sua glória será persistir num oceano de informação, que cada vez se torna mais profundo.

A principal característica do documentário é não ter fronteiras definidas, e estar em permanente evolução. Nunca houve melhor altura para algo ser assim.


Em adenda, gostaria de destacar os trabalhos realizados pelo National Film Board canadiano, onde a linguagem documental está a ser desenvolvida dentro das exigências multimédia e interactivas trazidas pelo online. Um excelente exemplo é o projecto Out My Window.

É este o futuro do documentário no ambiente digital, ou seja, é este o futuro do documentário na sua concepção técnica e narrativa.