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i de irremediável

…e não estou a falar do só do i. A troca de correspondência entre Martim Avillez Figueiredo e o Grupo Lena mostra a realidade da imprensa em Portugal: é só papel. Nem uma referência ao site, a investimento no digital, em multimédia. O i é um jornal e o site é (segundo ouvi dizer) o castigo para alguns jornalistas. Pelo que vi no programa da RTPN “Hora de Fecho”, o Grupo Lena vai aplicar algumas das resoluções que eu defendi assim que vi a primeira edição do i.

Eu pessoalmente não gosto da atitude editorial do i, que trazia por vezes mais curiosidades do que notícias (pelo menos era o que via no Facebook), mas respeito qualquer edição que tenha gente capaz e que consiga criar uma marca respeitada pelos seus pares internacionais. Todos os prémios que o i recebeu são merecidos, e não gosto de ver tanto potencial desperdiçado, numa redacção cheia de jovens jornalistas que vestiram a camisola de um projecto que sempre pareceu a muitos estar condenado desde o início.

E, repito, nem uma palavra sobre o investimento no online. Ter uma capa bonita nas bancas não chega, mas infelizmente é essa a maior preocupação da imprensa nacional.

Mais posts sobre o i em breve.

Duas entrevistas de estudantes

Eu não sei como ou porquê, mas volta e meia tenho estudantes de jornalismo a enviar-me perguntas para alguns trabalhos académicos. A maioria nem agradece, diz para o que é ou onde estuda, ou mostra os resultados finais, mas tento sempre responder o melhor que posso às questões colocadas. Acaba por ser uma maneira interessante de rever as minhas ideias sobre alguns assuntos, e espero poder contribuir para uma boa nota (apesar de achar que é sempre um risco andarem a fazer-me perguntasdeste tipo). De qualquer forma, no final do ano passado houve dois estudantes que pediram a minha opinião sobre crowdsourcing e crowdfunding, e sobre jornalismo vs jornalismo online. Aqui ficam as transcrições, e, se quiserem, discordem na caixa de comentários.

Crowdsourcing/funding – Tiago Perdigão

1 Onde ouviu falar a primeira vez de crowdsourcing/funding?

Não posso especificar quando, são temas que têm sido discutidos desde que comecei a olhar para os media online. No crowdsourcing temos como exemplo máximo a Wikipedia e na parte de financiamento têm surgido vários exemplos, com maior ou menor sucesso. Mas a participação dos utilizadores tem crescido por razões óbvias, e ainda há muito por fazer para se poder tirar o maior proveito disso. As redes sociais começam a desempenhar um papel preponderante em ambos os campos, especialmente no crowdsourcing.

2 O jornalismo português está a adaptar-se bem?

Nem bem, nem mal. Há sempre aquelas iniciativas de “partilhe a sua história” ou envie as suas fotografias” e pouco mais, o que é manifestamente insuficiente. Ainda não vi ninguém a assumir uma postura decidida sobre o assunto. No que diz respeito ao financiamento, há limites impostos pelas estruturas empresariais que não contemplam a contribuição monetária pelos utilizadores para projectos de investigação por exemplo, o que faz todo o sentido dentro da lógica comercial vigente. Talvez venha a acontecer em projectos mais pequenos e independentes, mas para já não vejo lugar para isso em regimes corporativos. Mas é necessário que se crie um diálogo com os utilizadores, e aí o crowdsourcing será mais eficaz, e útil para ambos as partes.

3 Pontos maus? 4 Pontos bons? (não tenho bem a certeza a que te referes, se ao jornalismo em Portugal se ao crowdsourcing/funding em si. Mas aqui vai.)

Não há estratégias definidas em Portugal para se trabalhar com as contribuições dos utilizadores. Há vantagens e desvantagens no crowdsourcing/funding, mas podem ser só vantagens se os media aprenderem a adaptar a sua estrutura para estes fenómenos. Ainda há quem pense que dar voz aos utilizadores é um perigo para a actividade jornalística mas essa voz existe e muitas vezes é mais forte do que a dos media. É preciso saber usar essa voz em favor de todos. 5 Um exemplo que gostaria de pôr em prática? O melhor exemplo de crowdfunding para mim e que gostava de pôr em prática é o Spot.us, um projecto que tem tido bastante sucesso e aceitação. Do lado do crowdsourcing não tenho assim nenhum exemplo em particular mas todas as ferramentas que agreguem e permitem a participação e expressão dos utilizadores são de grande importância, desde mapas abertos a sondagens, a publicar grandes volumes de dados para análise pública. O futuro passa cada vez mais por essa interacção entre os utilizadores e as estruturas jornalísticas e os utilizadores já estão no ponto certo há muito mais tempo que os jornalistas, falta apenas que estes se mantenham a par.

Jornalismo vs Jornalismo Online – Ruben Pires 

Os jornais vão sobreviver face à internet?

Se a pergunta é sobre os jornais em papel, alguns vão sobreviver sim, outros não. Começo a achar que não é a Internet que os vai fechar mas apenas a falta de visão das suas direcções. O que pode deixar de existir são algumas versões em papel, ou certos modelos, há jornais que estão a usar o papel para conteúdos diferentes do que os que publicam online, mais elaborados, com um investimento diferente na qualidade. Depois há a questão dos novos suportes, como os e-readers e os telemóveis, que toda a gente tem. O papel vai ser um luxo, e com mercados definidos, e isto não implica que os jornais como empresas acabem, mas que passem a adoptar novos formatos e a investir nos conteúdos mais apropriados apra cada dispositivo.

Que modelos de comunicação têm de adoptar os media tradicionais perante o digital?

Têm que aprender a fazer mais e melhor multimédia e a saber dialogar com os seus utilizadores, fazê-los sentir que são parte do processo, e deixar partilhar e redistribuir os seus conteúdos. Há uma atitude defensiva por parte de alguns media que são contra natura na lógica web, mas há sempre quem veja mais longe. A maior alteração é que têm que perceber que os processos, produtos e dispositivos finais têm características específicas e terão que saber adaptar-se a isso, e promover as capacidades necessárias à produção deste tipo de conteúdos dentro das suas redacções.

Looking back, looking forward | Olhar para trás, ver em frente

burning newspapers

This is the  time of the year where we look back and see how much we have accomplished, and where we are headed, or, at least, when we try to set a route for the next times. I always do that, but nowadays i’m basically going with the flow. Less talking, more doing, that has been my mantra.

But since i did a lot of talking (blogging) before about journalism, i wanted to recover a blog post i wrote 20 months ago. I think i wasn’t that far off from the truth, since i’ve been reading a lot of posts from smarter people than i am saying pretty much the same. Here’s a summary:

“There are five keypoints where changes must occur. Maybe there are more, but i’ll leave the others to you:

Method -> newspapers need to change the way news are gathered and presented;

Posture -> newspapers must change their editorial guidelines;

Involvement -> newspapers need to interact with the audience, not only regarding them as users or readers, but as people;

Investment -> newspapers need to spend money to make money, and charge less to more;

Technology -> use technology to make better, faster, unique;”

It’s newspaper oriented, but i guess it applies to any medium. Read the whole thing and let me know where i got it right and wrong.

Meanwhile, i’ll keep meditating on the path that led me where i am now, a small break for breath on the side of the road. I’ll resume my voyage soon. Happy New Year.

Esta é aquela altura do ano em que olhamos patra trás e vemos o que conseguimos fazer, e para onde vamos, ou, pelo menos, tentamos estabelecer uma rota para os tempos mais próximos. Eu faço sempre isso, mas hoje em dia ando ao sabor da corrente. Falar menos, fazer mais é o meu mantra actual.

Mas já que falei (bloguei) muito antes sobre jornalismo, queria recuperar um post que escrevi há 20 meses atrás. Penso que não estava assim tão longe da verdade, já que tenho lido muitos posts de gente mais inteligente que eu a dizer o mesmo. Aqui fica um pequeno sumário:

“Existem cinco pontos-chave onde são necessárias mudanças. Talvez hajam mais, mas vou deixar as outras sugestões para vocês:

Método -> Os jornais precisam de alterar a forma como recolhem e apresentam as notícias;

Postura -> Os jornais precisam de alterar as suas linhas editoriais;

Envolvimento -> Os jornais precisam de interagir com os seus leitores, não olhando para eles como utilizadores mas como pessoas;

Investimento -> Os jornais precisam de gastar dinheiro para fazer dinheiro,e cobrar menos a mais;

Tecnologia-> Os jornais têm que recorrer à tecnologia para fazer melhor, mais rápido e único;”

É sobre jornais, mas acho que se aplica a qualquer meio. Leiam o texto por inteiro e digam-me onde é que acertei e errei.

Entretanto, vou continuar a reflectir no caminho que me trouxe até onde estou agora, uma pequena pausa para ganhar fôlego à beira da estrada. Volto a fazer-me ao caminho em breve. Feliz Ano Novo.

Portugal: Multimedia & Online Journalism Awards | Prémios de Multimédia e Jornalismo Online

Video Journalism award winner | Vencedor do prémio de videojornalismo
Video Journalism award winner | Vencedor do prémio de videojornalismo

Last week, the ObCiber awarded, for the second year, the best online journalism works in Portugal. It’s a good way to recognize and evaluate the state of multimedia and online activity of portuguese media, but the feeling I get is that there is a lot to be done.

If we look at the nominees, we see that, basically, only three different  major news companies made the cut: Jornal de Notícias, Público and Radio Renascença, which are in fact the ones who are developing multimedia in the newsrooms in a sustainable way. The portuguese public television RTP also made the list, with their effort in mobile journalism during the elections, something that deserves to be analyzed by itself, since it had an experimental side to it. But that will have to stay for later.

Here are the winners of this year’s edition:

Na semana passada, o Obciber atribuiu pelo segundo ano os prémios para o melhor jornalismo online em Portugal. É uma boa forma de reconhecer e avaliar o estado e a actividade online dos media portugueses, mas sinto que ainda há muito por fazer.

Se olharmos para os nomeados, vemos que basicamente apenas três marcas informativas chegaram lá: Jornal de Notícias, Público e Radio Renascença, que são de facto os que estão a desenvolver o multimédia nas redacções de forma sustentada. A RTP também está na lista, com o seu trabalho de jornalismo móvel durante a campanha eleitoral, algo que por si só merece uma análise mais aprofundada, devido ao seu lado experimental. Mas isso vai ter que ficar para outra altura.

Eis os vencedores deste ano:

Full House for JN | Full House para o JN
Full House for JN | Full House para o JN

The most nominated and biggest winner was the daily Jornal de Notícias, one of the top selling newspapers in Portugal. They were practically running by themselves in most categories, so the Overall Excellency in CyberJournalism award was more than expected. They also won in Best Multimedia Story, with a work about the credit crunch and citizen’s debts, and Best InfoGraphics with a work about Poker.

Público, last year’s big winner, got the Breaking News award. Radio Renascença, the most heard radio in the country, won in the Video category with a piece about nuns in a monastery (they’re a Catholic radio), rewarding their efforts in the video department, that is one of the most hard working in Portugal, and that has been consistently delivering good works.

In college journalism, the Porto’s University news endeavour JornalismoPortoNet took the prize home with the “Porto Adrift” dossier.

O mais nomeado e o maior vencedor foi o Jornal de Notícias, um dos jornais nacionais com maior circulação. Como concorriam  quase sozinhos na maioria das categorias, o prémio de Excelência Geral em Ciberjornalismo era mais do que esperado. Eles também venceram na categoria de Melhor Reportagem Multimédia, com um trabalho sobre o endividamento dos portugueses, e Melhor Infografia com um trabalho sobre Poker.

O Público, o maior galardoado no ano passado, venceu em Breaking News. A Rádio Renascença venceu na categoria de Video, com um trabalho sobre freiras num mosteiro (são a rádio  católica portuguesa), recompensando o seu investimento no departamento de video, que é um dos que mais e melhor trabalha no país.

No jornalismo universitário, o JornalismoPortoNet levou o prémio para casa com o dossier “Porto à deriva

Entre o deve e o haver - JN_1260276904278
Best Multimedia Story | Melhor Reportagem Multimédia

Alfredo Leite, deputy director of Jornal de Notícias, told me that these awards are the recognition  of the work that the newspaper has been developing, and an “added responsibility, since the Observatory (ObCiber) gathers some of the people we acknowledge as the most competent in Digital Journalism” in Portugal.

He claims JN is one of the most solid news websites in the country “though most times we are not seen that way” by a mainstream audience. “It is also the confirmation of a multidisciplinary team that slowly has been integrating in the digital platforms all the journalists and other resources” of the newspaper.

In my opinion, there has been an evolution in Portuguese multimedia news but there is a lot to be done. What i hear is that some strategic mistakes have been made in some newsrooms, by appointing people who know nothing about the internet to coordinate multimedia, the neglect of the online towards a dead tree investment, and a demand for quality where there are no minimum working conditions.  But  that is not journalism, is plain politics.

Still, some are trying. And those will be the ones who will succeed.

Tell me what you think about these works in the comments.

Alfredo Leite, director adjunto do Jornal de Notícias disse-me que estes prémios são “o reconhecimento do trabalho que o JN tem vindo a desenvolver, muitas vezes de forma invisível, de consolidação da sua edição digital” e “uma responsabilidade acrescida já que este Observatório reúne algumas das pessoas a quem mais competências reconhecemos e matéria de jornalismo digital no nosso país”.

Ele afirma que o JN é “das webs mais sólidas do país, ainda que nem sempre sejamos reconhecidos enquanto tal pelo mainstream.”

“É também a afirmação de uma equipa multidisplinar que aos poucos tem integrado na plataforma digital todos os jornalistas e outros recursos do JN.”

Na minha opinião, tem-se assistido a uma evolução no jornalismo multimédia em Portugal, mas é preciso fazer mais. Do que ouço, há erros estratégicos a serem cometidos em algumas redacções, que nomeiam gente que não percebe nada de internet para coordenadores de multimédia, há negligência nos conteúdos online em favorecimento do papel, e uma exigência de qualidade onde não há condições mínimas para o fazer. Mas isso não é jornalismo, são politiquices.

Mesmo assim, há quem tente. E esses terão sucesso. Digam o que pensam sobre estes trabalhos nos comentários.

soitu.es: the end | o fim

soitu
Soitu.es Newsroom | Redacção do Soitu.es

One of the most interesting news projects going on the web is now closed. The spanish based Soitu.es is gone, after only 22 months after its launch. In between they won two Online News Association awards, a place in the News Museum in  Washington, and saw their design distinguished by the Society for News Design. It was interesting, intense, risky, but it failed.

Juan Antonio Giner shares in his view on the closing of Soitu the opinion of  AFP’s Eric Scherer in Rue89:

He says “that there are three lessons to be learned from the death of soitu.es:

1. Don’t depend only from one shareholder (specially if it is a bank)

2. Start small.

3. Don’t depend only from advertising.”

For Giner, “soitu.es made all these three mistakes.”  I wish the Soitu team the best of luck for the future.

Um dos projectos informativos mais interessantes na web acabou. O site espanhol Soitu.es fechou apenas 22 meses depois do seu lançamento. Pelo meio ganharam dois prémios da Online News Association, um lugar no News Museum em  Washington,e viram o seu design ser reconhecido pela Society of News Design. Foi interessante, intenso, arriscado, mas falhou.

Juan Antonio Giner partilha na sua visão do encerramento do Soitu a opinião de Eric Scherer da AFP, no Rue89:

Ele diz que “há três lições a retirar da morte do Soitu.es:

1. Não dependam de um uníco accionista (especialmente se for um banco)

2. Comecem pequeno.

3. Não dependam apenas de publicidade”.

Para Giner “soitu.es cometeu todos estes erros.” Desejo à equipa do soitu a melhor sorte para o futuro.