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Entrevista sobre o Twitter

O Twitter tem uma página em que passa o seu/nosso ano em revista

A Elisa David é aluna do curso de Comunicação da ESEC,o mesmo que eu tirei ainda no século passado, e quis saber a minha opinião sobre o Twitter e o seu papel no Jornalismo.

Quem me segue sabe que volta e meia aparecem-me estudantes de cursos ligados ao Jornalismo com pedidos de entrevistas para trabalhos curriculares. Como até hoje acho que não ajudei ninguém a reprovar não me importo de responder o melhor que posso. Parece que vêm falar comigo porque alguém lhes disse que eu era especialista nestas coisas e eu tenho que fazer jus à reputação.Por uma questão de transparência (sim, houve gente que me entrevistou e depois usou as minhas respostas como se fossem ideias próprias) e também para rentabilizar o que disse aqui fica a última contribuição.

A Elisa foi muito simpática e atenta neste processo e levantou algumas questões interessantes. Ora cá vai:

 

Descobriu o twitter, ou foi ele que o descobriu a si?

Eu inscrevi-me no Twitter há pouco mais de 4 anos, comecei a ler bastante sobre a plataforma, que era um pouco diferente do que é agora, e fiquei curioso. Mas ainda demorou algum tempo até começar a usá-lo regularmente.

Porquê usar o twitter?

As razões pelas quais se usa o twitter variam de utilizador para utilizador, e também foram mudando ao longo do tempo para cada utilizador. Pode ser uma forma de se receber informação e ter um grau de interacção com um grupo específico de pessoas, definidas pela sua actividade profissional, gostos (fãs de uma banda, por exemplo), localização, ou seja, qualquer parâmetro que possa definir esse grupo. Mas, obviamente, como as pessoas têm várias características e interesses, acaba tudo por ser bem mais transversal do que isso, e raramente se usa o Twitter apenas para um grupo.

Há quem use o Twitter como uma espécie de chat público, mas vejo isso mais em utilizadores mais velhos, talvez sejam reminiscências do mIRC, mas é uma ferramente muito interessante de comentário e diálogo, já que a possibilidade de catalogar vários tweets através de uma hashtag permite organizar um discurso colectivo. Vemos isso à volta de eventos desportivos, acontecimentos mediáticos, desastres naturais e, especialmente depois da revolta no Irão em 2009, em torno de manifestações e sublevações populares.

A nível empresarial o Twitter é normalmente usado como um canal de difusão, o que desvirtua um pouco o espírito da plataforma. Mas a maioria das empresas não sabe dialogar, especialmente as ligadas aos media. O Facebook veio expor essas fragilidades a nu, mas os primeiros falhanços no diálogo nas redes sociais começam no Twitter, porque o utilizador comum podia libertar-se das caixas dos comentários  dos sites das empresas ou dos posts dos seus blogs e entrar no discurso público.

Eu pessoalmente comecei a usar o twitter como uma ferramenta de diálogo, mas depois dos 500 seguidores, especialmente se forem activos, é muito difícil apanhar tudo o que se passa, por mais atento que se seja. Agora uso mais como plataforma de partilha e como fonte de informação.

É que este é um canal com duas direcções e pode ser usada tanto para difundir como para pesquisar e seguir informação. Devido às suas características (o twitter tem 140 caracteres de limite porque era para ser usado através de sms) podemos ter uma leitura rápida sobre um assunto. Há quem diga que é algo superficial, mas o que eu digo é que a ponta do fio traz um novelo agarrado.

Eu pessoalmente comecei a usar o twitter como uma ferramenta de diálogo, mas depois dos 500 seguidores, especialmente se forem activos, é muito difícil apanhar tudo o que se passa, por mais atento que se seja. Agora uso mais como plataforma de partilha e como fonte de informação, mas estou a ver se reverto a situação, quanto mais uso o Facebook mais gosto do Twitter em termos de diálogo.

Como é que esta rede social o ajuda no exercício da sua profissão?

O melhor exemplo que posso dar é o caso do avião que amarou no Rio Hudson. Por acaso na altura estava a olhar para o Twitter e leio um que diz que um avião vai cair no rio Hudson, em Nova Iorque. “Vai cair”, ainda não caiu. Foi um daqueles eventos que se desenrolaram muito depressa, e comecei logo a procurar por mais informação, usando as palavras chave e seguindo  utilizadores que pareciam estar no local. E por imagens também, a RTP tem tido uma atitude muito boa relativamente ao uso das redes sociais e na altura eles perguntaram-me (através do Twitter) se tinha encontrado alguma foto. Assim que achei partilhei com eles e a RTP, em apenas 10 minutos – desde que se soube do que ia acontecer – mostrou uma foto do que tinha acontecido, no outro lado do oceano, sem passar por nenhum outro orgão de informação, apenas usando o contributo de cidadãos que estavam a testemunhar e a participar dos acontecimentos.

Há jornalistas que acham isto uma estupidez, já mo disseram na cara, mas se formos a ver não é muito diferente que estar a olhar para a máquina dos telex, ver uma notícia de última hora e entrar em contacto com as testemunhas. O que muda é a velocidade, a possibilidade de termos outras linguagens envolvidas como fotografias e videos, e muito particularmente, a atitude de partilha dos utilizadores: a informação vem ter connosco se a soubermos orientar e pesquisar.

  Sendo jornalista e utilizador desta plataforma, que vantagens considera que o twitter traz à sua profissão?

Acima de tudo a possibilidade de ter um contacto mais pessoal com o nosso público, poder criar uma linha de diálogo com quem consome o nosso trabalho é fundamental, apesar de ser por vezes difícil de lidar, mas depende muito da atitude que se tem, tanto perante o trabalho que se faz como com as opiniões dos outros.

Depois é a possibilidade de se poder criar a nossa própria rede de contactos, o nosso feed pessoal e público. Há muita gente a alterar o percurso tradicional da comunicação empresarial e a difundir informação directamente na sua conta do Twitter em vez de usar press releases e afins, por isso é preciso ter noção dessa mudança e adaptarmo-nos a ela.

A lógica de partilha, os retweets, também são úteis, não só por partilharmos informação não criada por nós que é relevante mas também por que damos algum crédito a quem a originou. Isso traz proximidade e é o que digo, a parte complicada do jornalismo não é escrever os textos ou fazer vivos para uma câmara, mas relacionarmo-nos com as pessoas e com as fontes. Se tivermos uma presença interessante e interessada as histórias e a informação vêm ter connosco.

Muita da sua fama advém da forma como utiliza as plataformas online. Até que ponto o twitter pode ser considerado uma ferramenta da informação?

É uma ferramenta pura de informação, porque funciona em tempo real (síncrono), é abrangente e transversal, sem limites geográficos, e tem um elevado grau de viralidade, ou seja, a mensagem pode-se espalhar muito depressa. Conheci gente muito crítica do Twitter, mas tenho a certeza que para passar a mensagem deles usariam de tudo ao seu alcance, nem que fossem sinais de fumo. É uma ferramenta de comunicação com características particulares, agora se é usada em todo o seu potencial pelos profissionais de informação é outra questão.

Considera que a simplicidade do twitter convém ao meio informativo ou, pelo contrário, torna a mensagem mais redutora?

A mensagem não é redutora porque um tweet é um ponto de partida. Pode ter um link para um artigo, um imagem, um video ou áudio: “Acidente A2 agora” + link da foto do carro espatifado. Isto não é redutor, é sucinto. Não diz as causas nem temos pormenores sobre as consequências, mas é um ponto de partida. O problema é que muita gente encara o jornalismo dessa forma, diz que houve um acidente e pronto, e não se dá ao trabalho de fazer mais perguntas. O meio nunca é redutor, a atitude pode ser.

O twitter é um serviço de mensagens. Sendo assim, faculta uma maior proximidade entre utilizadores. Acha que esta proximidade facilita o contacto com as fontes e, por conseguinte, o processo informativo?

Claro, porque permite o contacto e o diálogo imediato com vários utilizadores, contornando uma série de obstáculos e limitações como a localização, por exemplo. Eu estava em Birmingham a recolher informação partilhada por utilizadores locais durante as enxurradas na Madeira. Há quem ache que não se pode confiar em fontes online, mas tem que se fazer o mesmo que se faz às fontes offline: verificar, verificar, verificar.

Como se fazem entrevistas via twitter?
a) É um meio cómodo para entrevistador e entrevistado?

Depende, eu não acho que seja um bom meio para entrevistas mas acho um meio excelente para ser usado em entrevistas em directo noutros meios, seja no mundo real durante uma conferência, na rádio ou na televisão. Uma entrevista exclusivamente no Twitter tem que ter um público específico e que esteja disposto – assim como o entrevistador e o entrevistado deverão estar – a passar umas horas num diálogo intermitente que se condensaria em poucos minutos.

É uma forma fantástica de se abrir o processo da entrevista ao público e permitir que se façam perguntas que realmente interessam ao público, sem a mediação do jornalista. Isto levanta uma série de questões interessantes sobre o controlo e o papel do jornalista na informação  e a sua responsabilidade editorial, e também sobre o que as pessoas querem realmente saber, assim como o grau de exposição do entrevistado. Eu acho que torna tudo mais divertido.

b) Devido à limitação de caracteres, as perguntas dos jornalistas e as respostas das fontes não se tornam demasiado superficiais?

Se for tudo feito pelo Twitter e se não se souber comunicar pelo Twitter, sim. Mas o Twitter não é para se fazer dissertações, é preciso adequar tanto as perguntas como as respostas ao meio.

As aplicações como “twitter portugal” ou “twitter local” vieram facilitar a profissão do jornalista (quando utiliza esta plataforma)? Em que medida estas o auxiliam no contacto com as fontes?

Não uso essas plataformas, aliás, a única utilidade que tiveram para mim foi encontrar e ser encontrado por jornalistas nacionais. Mesmo as ferramentas de geolocalização do Twitter não são muito fiáveis, dependem do serviço de internet e da própria sinceridade dos utilizadores na altura de definir a sua localização. Podem ser uma forma de aproximarmo-nos ou permitir uma aproximação das fontes, mas há outras formas de filtrar, avaliar e contactar as fontes.

Acha que o twitter veio modificar a forma de fazer jornalismo em Portugal?

95%  dos jornalistas com que lidei até hoje não usam o Twitter, ou usam de forma muito residual. Eu às vezes acho que nem a Internet veio mudar a forma como se faz jornalismo em Portugal, mas isso sou eu que gosto de dramatizar as coisas. Não acredito que haja muitos jornalistas cá que encarem o twitter como uma das suas principais ferramentas de trabalho.

 

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Devo dizer ainda que reparei ontem que ultrapassei os 5 mil seguidores, o que não é mau, já que por norma nunca adiciono ninguém a não ser que me interesse mesmo, e adiciono de volta 90% das vezes, ou seja, não é um crescimento forçado ou que recorra a estratégias. Depois, ainda não tenho a última versão do Twitter a funcionar, mas parece-me ser muito interessante a forma como estão a redesenhar a plataforma e as sua funcionalidades.

A melhor das novidades é a possibilidade de incorporar os tweets nos blogs, mantendo o seu aspecto original, mas há muitas outras que valem a pena ser exploradas, mas não pensem que se trata de uma facebookização do Twitter. É algo mais.

Podem também ver o balanço do ano feito por eles, com os momentos mais marcantes que se desenrolaram a 140 caracteres de cada vez. Se não perceberem aí porque é que o Twitter é tão importante, então nunca  irão perceber.