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Um ano de crónicas no Rascunho

Foi há um ano que comecei a escrever um caderno supostamente semanal no Rascunho. Supostamente, porque sou terrivelmente irregular, e há semanas que falho. De qualquer forma, é um espaço que prezo muito porque me afasta um pouco da lógica do blog, se bem que o tema seja o mesmo, tenho é uma latitude diferente que o pessoal do Rascunho me dá (o Hugo Torres, especialmente, que é o tipo que me atura as postas). Aqui fica a lista dos posts que escrevi neste ano, assim à laia de leitura de fim de semana. E um obrigado imenso ao pessoal do Rascunho por darem espaço a gajos como eu.

PS: Há outros cronistas bem melhores por lá, explorem que não ficam arrependidos.

MEDIA DJ

i agora

"O i tornou-se uma marca com muitas coisas dentro: um grafismo diferente, uma linguagem inovadora no reino da imagem, uma cultura de seriedade e um olhar para o que se passa em Portugal mas também no mundo. Também a recusa do fácil e do jornalismo light, por exemplo. Com erros por palavras e omissões, mas sempre de boa-fé." Editorial 1º aniversário, i , 7 de Maio de 2010

O i celebra hoje o seu primeiro aniversário no meio de uma crise que não se deseja a ninguém: o seu director demitiu-se na sequência dos cortes anunciados pela direcção do Grupo Lena, detentor do jornal e de mais uma série de orgãos de comunicação regional, as propostas de novos salários para os membros da redacção não são muito animadoras para uma equipa maioritariamente jovem, e os números de circulação estão longe dos estabelecidos como objectivo no início do projecto. Isto tudo apesar da edição em papel ter justamente ganho vários prémios internacionais pelo seu grafismo. Se estou surpreendido? Não.

Normalmente não compro jornais, por isso o meu contacto com as edições e as marcas são feitas online e, como um grande e crescente número de pessoas, recebo grande parte das minhas notícias pelas redes sociais. Se não conhecesse o trabalho no papel do i, diria que era uma publicação light, desinteressante, feita de um jornalismo de curiosidades, com uma atitude juvenil, e sem grande investimento na criação de conteúdos próprios, ao ponto de traduzirem textualmente posts de sites de referência regularmente, sem qualquer tipo de creditação.

O site não tem nada – a nível de conteúdos – que não seja agregação ou shovelware da produção para o papel, uma versão série B do impresso, que foi a plataforma onde a antiga direcção apostou mais – os premios provam que o investimento feito na embalagem compensou o esforço e a qualidade dos seus profissionais. Mas é isso, o i é papel de embrulho, porque de conteúdos é fraco: na ideologia, na linguagem, nas ideias. No mínimo ficou aquém da concorrência directa, não conseguindo sequer tirar benefícios das crises que os outros também atravessam. O problema será editorial, mas também é estrutural.

Na minha “tese” sobre o i há um ano atrás, dei a minha opinião sobre o que deveria ser a sua estratégia, já que achei que a que eles definiram não era muito realista tendo em conta o mercado e as próprias mais valias do seu produto. Em resumo:

  • o i não é um jornal diário, 2/3 números semanais e uma edição de luxo ao fim de semana eram fantásticos;
  • é um jornal de nichos, claramente urbano e com um público jovem;
  • o i não está a aproveitar as sinergias do Grupo Lena, o maior grupo de imprensa regi0nal do país, ao dar preferência a artigos do NYTimes quando tem um manancial de informação nacional ao seu dispor;
  • não são hard news, e podiam apostar mais na profundidade (é o que tentam fazer, mas falham muitas vezes);

outras ideias:

  • o online é inútil: sem produção própria a nível de multimédia, uma presença pobre nas redes sociais onde ganham audiência apenas com artigos desligados da realidade, numa sucessão de bizarrias e curiosidades (já ouvi dizer que quem trabalha no online do i é porque está de “castigo”, se alguém me puder confirmar isto agradeço), muitas delas baseadas em sexo, ou pelo menos é a impressão que tenho;
  • estão com mentalidade de papel (estavam, pelo menos), o que é um erro num jornal lançado em 2009;
  • o i não tem identidade, apesar de ter havido um certo culto da personalidade, e não souberam capitalizar a sua diferença como objecto único no panorama jornalístico português;

O i para mim é como os livros do Paulo Coelho: se vou a casa de alguém e vejo um monte de exemplares, deixo de os respeitar um bocadinho (já me desapaixonei de algumas mulheres por causa disso). O Paulo Coelho é um escritor com um sucesso gigantesco e um óptimo contador de histórias, mas deixa muito a desejar numa série de pontos essenciais para mim como leitor e ser humano.

Hoje, o “i” é reconhecido como uma marca de informação rigorosa, inteligente, inovadora e arrojada“, diz Francisco Santos, administrador da Sojormedia, a empresa do Grupo Lena na área da Comunicação Social. O i foi inovador por um lado, conservador por outro, não é paradigma de rigor e por vezes é um insulto à inteligência, digo eu. O i foi dos jornais que mais me irritou nos últimos anos artigo sim, artigo não, apesar do meu esforço para gostar deles, e do respeito que tenho pelas pessoas que lá trabalham, que na sua maioria considero talentosas e corajosas.  O i falha nos pormenores, e durante muito tempo achei que isso passava, mas os pormenores onde falham afinal parecem ser “estilo”. Se não tivesse aquela atitude de jornal “muit’á frente” seria bem melhor. É giro nas redes sociais, mas também o são fotografias de gatinhos, e o i nunca quis ser um jornal “giro”, mas sério.

No seu editorial de primeiro aniversário, o director interino Manuel Queiroz diz :“Ninguém sabe o que será a informação e o jornalismo dentro de dez anos, mas não tenho dúvidas de que terá muito do que o i trouxe.” Eu por um lado acho que tem razão, por outro espero bem que isso não aconteça. O i neste momento é papel, pouco mais que zero no online, quando muito é uma versão estilizada de um produto que irá desaparecer daqui a 10 anos como o conhecemos, parecendo-se cada vez mais com um símbolo do princípio do fim, do que um novo começo.

De qualquer forma, feliz aniversário, e desejos sinceros de que consigam dar a volta à situação. Pelo menos conseguiram bater algumas das apostas que não vos davam um ano sequer, e espero que continuem por cá durante muito mais tempo.