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Snow Fall: o futuro e os meios de produção

 

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Snowfall, New York Times, 2012

 

Tem-se falado bastante da reportagem do New York Times “Snowfall“, muitas vezes pela perspectiva menos interessante. Uns dizem que é o futuro do jornalismo, outros dizem que não, e há quem ache que só naquela redacção é que se podia fazer um trabalho destes. Está toda a gente a exagerar.

Primeiro temos que ver a dimensão do trabalho:

-é uma reportagem que provavelmente não teria espaço numa publicação não-digital, mesmo numa revista (de tal maneira que foi feita uma edição em ebook);

-demorou seis meses a ser feita;

-ocupou uma equipa de 17 pessoas;

-usa video, áudio, aplicações interactivas para recriar o evento;

Vamos por partes, e começamos pelas mais chocantes para quem faz jornalismo.

Meios

Seis meses e 17 pessoas são recursos que a maioria das redacções não pode disponibilizar para uma reportagem.

A questão não está nas 17 pessoas mas o que faz cada uma delas: 12 estão creditadas no design e produção do projecto, 3 na parte de video, 1 na pesquisa adicional, e o jornalista que coordenou o projecto.

Muitos jornalistas disseram que isto é uma aberração, e eu concordo que parece ser, especialmente para quem vem do meio individualista do impresso. Olhando para a quantidade de pessoas que são precisas para fazer uma reportagem televisiva de fundo e colocá-la no ar, vemos que a proporção não deve ser muito diferente, entre o número de jornalistas e pessoal técnico que faz com que seja emitida, e mesmo o papel tinha gráficas inteiras com dezenas de pessoas e distribuidores para despachar o seu produto. É uma espécie de hipocrisia moldada pelos hábitos de produção, e uma visão redutora do processo de produção de informação.

A maior parte da equipa está relacionada com os apectos técnicos e visuais da reportagem, e se queremos ter histórias que se adequem ao meio  digital, temos que ter pessoas com as competências necessárias para as produzir.

Concordo que seis meses é muito tempo, mas se virmos a quantidade de fontes e dados necessários para abordar este assunto, vemos  que é um trabalho complexo. A colaboração de algumas entidades de investigação científica, que vivem fora da pressão de produção diária do jornalismo também pode ter ajudado a que a demora fosse maior.

Nem todas as histórias servem para reportagens deste tipo. É preciso que tenham um certo grau de intemporalidade e, que tenham a possibilidade de serem seguidas no futuro com novos conteúdos.

Um dos exemplos que dava nas minhas formações era a reportagem do Star Tribune “13 seconds in August“, realizada em 2007, que demorou também vários meses a ser produzida, com uma equipa grande também, e que ainda hoje tem espaço na publicação com actualizações sobre os sobreviventes. Porquê? Porque o evento o justifica.

Em Portugal, numa situação semelhante, só uma publicação se deu ao trabalho de fazer algo assim, e a diferença de investimento nota-se.

Também é preciso ver que uma das pessoas envolvidas é o Xaquin Gonzalez Vieira, uma das referências na produção de narrativas digitais, que esteve ocupado a fazer outras coisas enquanto a reportagem era produzida. Devem conhecer melhor a sua infografia da queda  do avião no rio Hudson.

Resultado deste esforço?

uma semana

Tecnologia

Este é capaz de ser o primeiro grande trabalho de grande divulgação produzido por uma redacção que usa simplesmente HTML5 , CSS3 e Javascript para uma grande reportagem, em detrimento do Flash que, devido à sua fraca implementação nos tablets, tem perdido interesse por parte dos criadores de narrativas digitais.  Não são só necessárias pessoas nas redacções que saibam programar mas que saibam trabalhar com dados geográficos e estatísticos. No entanto, a produção dentro das redacções ainda se centra muito no esforço isolado do jornalista-escritor.

Concordo com quem disse que isto não é o futuro do jornalismo, mas não da mesma maneira. É o presente, e não é ficção científica. Não é um esforço descabido, especialmente se comparado com outro tipo de investimentos e se olharmos aos resultados qualitativos e quantitativos. E, basicamente, é uma reportagem com um formato tradicional, mais uns extras.

É , acima de tudo, o futuro das narrativas digitais de fundo. A tendência está aí, a procura também. O mercado digital está a expandir-se cada vez mais por plataformas com necessidades de visualização e interacção específicas que é necessário satisfazer. Mas isso implica que, onde quer que se queira produzir conteúdos para meios digitais, haja competências,  estratégia de mercado e meios de produção adequados.

Choque e exagero não é a melhor maneira de se encarar mais uma forma fantástica de se contar histórias. O que me preocupou nas críticas foi o facto de não terem em conta a realidade do consumo e sim a fraca qualidade das condições de produção existentes na maioria das redacções. Apesar do esforço feito pelos mesmos há anos (Rádio Renascença, Público e JN), o panorama das produções multimédia em Portugal é basicamente o mesmo há 5 anos, com um grau de evolução muito próximo do zero.

E o que vem a seguir a esta avalanche?

So what’s next? The design team behind the Times project told The Atlantic Wire last week that no specific new stories had presented themselves yet as affording the “luxury” of the six months it took to report and design “Snow Fall.” But Abramson’s memo cites one-third of traffic to the avalanche story as first-time web visitors, and that can be more appealing than raw numbers. (We’ve reached out to the Times for comment, and will update when we hear back.)

The Times, of course, does long, reported features all the time, but as The Atlantic’s Derek Thompson pointed out, “There is no feasible way to make six-month sixteen-person multimedia projects the day-to-day future of journalism, nor is there a need to.” But it’s been a great year for the “long read” community, and while there were few ads on the full-screen layout for “Snow Fall,” that its traffic has been dwarfed entire sites might not make single-story advertising too far fetched of an experiment.

 
So What if Tons of People Read That ‘Snow Fall’ Story on the Times Website?
 

Ainda o Fórum Jornalismo e Sociedade: Videos ESECTV

A ESEC TV, a TV da instituição que me licenciou e que está cheia de gente com quem trabalhei e de quem gosto bastante, esteve a fazer o directo e a cobertura para o seu programa semanal das 4ªs à noite na 2, do Fórum Jornalismo e Sociedade. Acabaram por me entrevistar mas se calhar os outros entrevistados na ocasião disseram coisas mais interessantes, por isso dêem uma espreitadela.

Moi même:

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Gustavo Cardoso, coordenados do projecto Jornalismo e Sociedade

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Sara Meireles, que foi minha professora  na ESEC

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José Alberto Carvalho, este toda a gente conhece, também esteve lá

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Adelino Gomes, que tem sido a alma destes fóruns

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How Portuguese News Websites (don’t) use Citizen Journalism (2008)

 

Rummaging through old files I came across with the most interesting stuff: almost exactly 4 years ago I wrote this. It reminded me of a debate I participated this week.

(It was published here and here)

Not much has changed. Or did it?

 

Ao remexer em pastas antigas, encontrei algumas coisas interessantes: há quase exactamente 4 anos escrevi isto.Lembrou-me de um debate em que participei esta semana.

(Foi publicado aqui e aqui)

Pouco mudou entretanto. Ou mudou?

 

We’ve been watching a significant change in the Portuguese news media, for the last few years. From national to local newspapers, radios and TV channels, everyone is building their presence online, with more or less aptitude or quality. Still, the effort is noticeable.

But this investment in new platforms of communication doesn’t mean the companies are following the latest trends, or leaving their somewhat conservative approach to the full possibilities of the web. The news websites in Portugal are mostly a repository for print content, since many don’t have exclusively online journalists, and the resources for online content are rather limited, especially as multimedia content is concerned, though slowly the tide is turning, mainly due to the efforts of major newspapers, that are trying to improve and take the step forward in online content.

This scenario, of slow and uneven development of new media content, is useful to explain why the interactivity between media and users is practically inexistent. Many still don’t grasp the concept of participative/citizen journalism and community, but companies and newsroom managements aren’t the only ones to blame, since there are other factors to consider:

– Portugal has a low newspaper reading index, and despite an increase in the last years, it is still one of the lowest in Europe;

– the Portuguese, as a people, usually aren’t civically engaged;

– journalists, as a class, are quite protective about their job;

– there is no specific training for professional journalists regarding community management, content moderation, outsourced content;

So, if news information still runs downriver, it’s because there’s not only a structural problem, but also a passive-aggressive attitude towards citizen journalism: passive on the citizen part, aggressive on the journalists’ that defend their status as news bearers with tooth and nail, even if most don’t take any effort to understand the new reality.

To vouch for these changes and current mindset, I created a small survey in which I was trying to understand the conditions and openness of online media to citizen contribution. It was divided in 4 parts: company characteristics, main types of content and sources, forms of user participation, and a short opinion on citizen journalism. This survey was sent to about 50 newspapers, TV and radios with online news features, sizing from national media groups to local companies. The response was baffling.

A quarter of the email addresses available for contact with the website or newsroom’s management were useless, and even after further attempts inviting the remaining ones that worked, only four companies replied and filled out the form. The results are, therefore, inconclusive. But this is a good example to show how receptive most newsrooms and companies are to outside stimulation, even if it wasn’t only for the fact that the ones that replied are amongst those who are working to develop their presence online, in a well thought, sustainable way, and embracing the new challenges posed by hyper-communication, while the vast majority is selling pig in a poke.

Anyway, these were the results: two newspapers – one national, the other local – one online news outlet and a TV channel answered to the survey. The local newspaper was the less resourceful, with no exclusively online journalists, against the online outlet who has over 30 workers. The local newspaper had a 30 to 50 thousand visits, against the over 330 thousand claimed by the TV channel’s online newsroom. All of them prioritized text over video, audio and photography, being video the less used format, except on the TV website, for obvious reasons. None of them used citizen or users as a source, sticking to the journalists’ investigation and agencies feed, although users’ images and videos were welcome. All of them are expecting to open their website to further user collaboration, and when asked about the future of citizen journalism, the best answer was “interactivity is one of the factors that increases the number of visits,(…) and the visibility and acknowledgement of the brand”. This line of thought is still a needle in the Portuguese news haystack.

The most recent reports on citizen journalism in the USA (State of the News Media 2008) show a decrease in user’s participation, though there are new websites and features popping up everyday, appealing to news readers to develop contents and create a tighter relationship with the online editions. In Portugal, all the news related to media websites development is announcing more multimedia and interactive features, for a broadband usage: more video, more comments, more space for users’ opinions and input. With very few notable exceptions, nothing is really changing; the main difference now is that the contributions accepted by media companies are now being sent over the internet, instead of regular mail, like it happened for decades.

Portuguese users are actively creating own media, like blogs and podcasts, and commenting on the news websites, or sending small videos and pictures is still enough for most of them. And on the day I’m writing this, Público presented a feature, that links a news article to the blogs that refer to it, which may mean that the future is not necessarily in the embedding of citizen content, but by promoting the exchange of contents between corporate and citizen media.  But, apart from those small advances to integrate users in the building of the news landscape, there is nothing we may call as citizen journalism in Portugal.

The reasons to proclaim citizen journalism as a part of the future of news media may be honest or pure marketing, but the fact is that it doesn’t rely solely on the companies shoulders. The main promoters of this movement must be the citizens themselves, and they should be the leading force in changing the face of corporate news, recreating the agenda setting, humanizing and lending depth to news content. The media outlets just have to be ready to accept that.

 

 

 

 

Jornalismo e Sociedade: Entrevista a Adelino Gomes – “O jornalismo é um privilégio e uma responsabilidade”

Esta terça feira fui a Coimbra assistir ao Fórum Jornalismo e Sociedade, um evento itinerante nascido do projecto com o mesmo nome e que procura descobrir como se faz jornalismo em Portugal e qual o seu futuro.

Num auditório repleto de estudantes de comunicação, discutiu-se muito sobre as condições em que o jornalismo português é feito, e fiquei surpreendido com algumas das questões levantadas, que só provaram que há muita gente ainda longe da realidade do que deve ser feito para se ter um jornalismo viável, de qualidade e de acordo com as necessidades dos públicos actuais. Mas sobre isso falarei mais tarde.

No final do debate, entrevistei Adelino Gomes, um dos responsáveis deste projecto, que me explicou quais são os objectivos e a sua opinião sobre o que é – ou o que deve ser – a profissão de jornalista. Gostei tanto que quase não fiz cortes nenhuns. A reter:

O jornalismo é um privilégio e uma responsabilidade.

Visitem a  página oficial do Jornalismo e Sociedade.

 

 

 

 

Novo site do El País: mudanças e estratégias

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O El País renovou o seu site e não se tratou apenas de uma operação de estética. Há alterações profundas nos processos e nos hábitos da redacção, na estrutura das secções, mas mantendo a filosofia que interessa: serem os primeiros, os melhores, os que satisfazem o leitor do século XXI.

De acordo com Javier Moreno, director do El País, esta foi uma tripla mudança: no design, no gestor de conteúdos, e na “estrutura da redacção para poder atender a todas as necessidades dos leitores na web“.

Um dos pontos fulcrais está mesmo nessa reorganização da redacção, com alterações no workflow, desde a constituição das equipas ao estabelecimento de novos horários – a redacção funciona agora em regime 24/7.  O objectivo é colocar o “produto El País” na web, “o canal natural das notícias no século XXI”, potenciando assim toda a capacidade dos jornalistas, analistas, correspondentes.

As próprias secções da publicação foram estruturadas de forma diferenciada, uma estratégia definida “após uma análise detalhada de quais são as necessidades e exigências de cada leitor.”

Neste processo de mudança aprenderam que a inovação jornalística está ligada à inovação tecnológica:

Apenas com uma aposta na tecnologia é que poderemos levar a informação de qualidade aos leitores do século xxi não só através dos ecrãs dos computadores mas também através dos telemóveis e dos tablets.

De salientar o investimento feito na secção da América Latina, o que permite explorar um vasto mercado de leitores que falam espanhol, a segunda língua mais falada no mundo, por cerca de 380 milhões de pessoas. Há um mercado de 178 milhões que falam português.

Como podem perceber, este caso é diferente de outros que já abordei aqui no blog, pois  existe um plano que vai para além do aspecto do site ou das suas  funcionalidades, e que relaciona os métodos de trabalho com as necessidades dos utilizadores, assim como as exigências das diferentes plataformas, tirando o máximo proveito da história e recursos humanos da marca.

É uma mudança feita a pensar nas características específicas do meio online e das diversas plataformas digitais.

Outro ponto de interesse  – e que não está explicado no vídeo –  é a forma como vão utilizar um “Colabulário“, ou seja, uma convenção de tags/etiquetas para poderem relacionar conteúdos actuais e de arquivo, algo que já defendi neste post, e que quem teve formação comigo se deve lembrar de eu falar.

 

Um aparte: tudo o que foi feito no El País, ou pelo menos como é vendido, é basicamente como acho que a reformulação das publicações online devem ser feitas. Eu começava a achar que estava errado e assim, pelo menos, vejo que não estou a errar sozinho.

 

Mais um aparte: este vídeo foi (bem) feito com uma HDSLR.

Partilhem aí a vossa opinião sobre estas mudanças e estratégias, e indiquem exemplos equivalentes em Portugal.

A estratégia do EL País está clarificada neste slideshow, e analisada por dentro aqui e aqui.

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