Os mais inteligentes não se deitam mais tarde e lêem tudo até ao fim

Agora que tenho a vossa atenção, passo a explicar: o Público deve andar admirado por ter um artigo do ano passado, fechado a sete chaves por detrás da sua assinatura, com tanto impacto nas redes sociais.

Dois pontos importantes:

  1. as pessoas não lêem os artigos que partilham no Facebook;
  2. porque é que um post popular com quase um ano de vida não passa para o domínio….hmm…público?
artigo no site do Público

Há assuntos que parecem ter um encanto especial, particularmente aqueles que validam práticas de vida que não nos são muito favoráveis. eu delirei com o estudo que dizia que a cerveja não provocava barriga e que comer chocolates  não engordava e fazia bem à saúde. Este do Público que diz que as pessoas que se deitam mais tarde são mais inteligentes.

Aliás, o que podemos ler no que está disponível no site é o seguinte:

As “corujas” são mais criativas e as “cotovias” mais organizadas. Entre cérebros “artísticos” e “pragmáticos” era essa a diferença imposta pelos ritmos de actividade. Mas agora um estudo veio quebrar este equilíbrio com uma conclusão, no mínimo, controversa: as pessoas que se deitam tarde têm tendência para ser mais inteligentes do que as outras. Por Luís Francisco

sendo o título :

Sono

Os mais inteligentes deitam-se tarde

mas como podem ver na imagem, o que está a ser partilhado no Facebook é:

Os mais inteligentes deitam-se tarde e bêbedos

o que para mim só prova uma coisa: o pessoal partilha tudo a que achar piada sem ler o texto na sua totalidade. E mudam os títulos quando os partilham.

Um artigo em Abril de 2009 no Telegraph anunciava que os que se deitam mais tarde são mais ricos e mais espertos, só para verem como é um tema recorrente nas secções de ciência. Não vou contestar tais estudos, mas acho que se nos andarmos todos a deitar tarde e a más horas para acordar para o trabalho bem cedo a coisa não resulta. Uma das causas mais comuns para acidentes rodoviários é adormecer ao volante, por exemplo.

Eu funciono melhor de manhã mas é porque acho que evito a estupidez geral de quem acha que é muito inteligente porque se deita tarde e não porque fez alguma coisa por isso. De qualquer das formas, tenho dias que antes de almoço já trabalhei 6 horas e ainda faço mais 8 no resto do dia. Como não me pagam por isso, deve ser a prova de que sou meeeeeeeeeeeesmo menos inteligente do que se me deitasse às horas a que me levanto.

No que toca ao jornalismo em si, acho fantástico que um artigo com quase um ano tenha ganho vida através das redes sociais. Eu em antecipação já tinha escrito um post na semana passada a falar disso mesmo (isto é porque acordo cedo e dá-me para escrever coisas).

O que não está a acontecer é a mobilização por parte das publicações em rentabilizar ou compreender o fenómeno, com uma má gestão dos arquivos e, como neste caso, negando-lhes o acesso, mas se houvesse a possibilidade de se fazerem micro pagamentos talvez até rendesse alguma coisa. Eu disse que o Público deve andar admirado, mas se calhar nem por isso.. Também não importa muito porque os utilizadores não passaram do lead, só para verem o que o pessoal está disposto a ler se o título for demasiado apelativo ao ego. Eu prefiro coisas mais ligadas ao estudo.

Se fizermos uma pesquisa no Google com o título do artigo, podemos observar um fenómeno interessante :

pesquisa a 14 de Dezembro de 2011. Vejam o sublinhado a amarelo.

A blogosfera está a ampliar o efeito zombie deste artigo. Imaginem que um artigo sobre a economia portuguesa se torna viral de um momento para o outro, apesar de ter sido publicado há mais de um ano? Um tweet lançou um rumor que levou 10000 pessoas a esvaziar as suas contas bancárias na Letónia.

A crowd não está a fazer bem o seu trabalho de curadoria? O mais extraordinário é que parece que o tema tem sido discutido e dissecado em posts, comentários e fóruns sem que a esmagadora maioria dos utilizadores tenha lido o artigo.

Como é que se podia tirar proveito do buzz à volta deste artigo? Um follow up? Uma aproximação à comunidade, com questões sobre os hábitos de sono dos seus membros? Um teste de QI em que se separavam os resultados por hora de deitar?

Eu aprendi há muito tempo que a inteligência não é uma coisa que se tem, mas algo que se usa, normalmente aliada à curiosidade. Se leram este post até ao fim digo-vos que, para mim, vocês são os leitores mais inteligentes do mundo.

13 thoughts on “Os mais inteligentes não se deitam mais tarde e lêem tudo até ao fim”

  1. Pessoalmente, penso que a questão não é tanto se as pessoas lêem os artigos na integra, ou se buscam saber a veracidade dos mesmos. Isso é outra questão. Creio que está mais relacionado com outras disciplinas, como a sociologia por exemplo. Mais relacionado, não quer dizer que não esteja relacionado com Jornalismo, claro. Mas não é novidade que os leitores, seja na web ou nos meios “tradicionais” lêem muitas vezes as matérias na diagonal, por vezes só o título. O que motiva à leitura na integra e a posterior confirmação de que o que se leu é verdadeiro, diz respeito a muitos factores, desde logo com o interesse pessoal, o “que está na moda” e que portanto convém ler, entre muitos outros factores (entre os quais o sensacionalismo, o “diferente”, algo que sai da rotina. Por algum motivo o Correio da Manhã continua em circulação). Penso (mais uma vez, opinião pessoal, como tudo o que escrevi até aqui) que a questão que este fenómeno levanta não é tanto se as pessoas lêem e fazem pesquisa pelos seus próprios meios, ou mesmo se a informação é “verdadeira”. São questões importante, claro, mas julgo, neste caso, não serem as mais importantes. O que me parece mais intrigante é tentar perceber porque é que estes artigos, as “noticias zumbis” como a Alessandra apelida, têm sucesso num certo período de tempo e não antes. Porque são “desenterradas”, porque têm tanta visibilidade e partilha por parte da comunidade

    1. é esse tipo de reflexão que tento fazer aqui e no outro post que refiro. mas uma coisa é preciso dizer, os leitores são mais proactivos na pesquisa de informação, mas não todos, claro.

  2. Notícias zumbi é um ótimo termo para definirmos essas matérias que o pessoal “desenterra”. No facebook, os brasileiros começaram a compartilhar uma lista de alimentos que mais fazem mal à saúde. A matéria era de março deste ano, mas só “pegou” agora nos últimos 15 dias. http://www.ecodesenvolvimento.org.br/posts/2011/abril/nutricionista-lista-os-10-piores-alimentos-para Veja quantas pessoas curtem a matéria. E veja que há um hiato de comentários de setembro a dezembro, que foi agora nessa febre de compartilhamento. Daí eu me pergunto; “Será que essas pessoas foram pesquisar quem é a tal Dra. Cook? Será que elas compararam com outras centenas de listas de alimentos prejudiciais que rolam pela web. Aposto. abraços.

  3. Obrigado, já é mais que o suficiente. Qualquer ajuda é sempre bem vinda, ora essa! 😉

    Continuação de bem trabalho.

  4. Boa noite!

    Em primeiro, dizer que esta é a primeira vez que passo por aqui e, até agora, estou a gostar bastante do que leio.
    Em segundo, venho humildemente pedir ajuda. Isto é, se não me estiver a esticar para uma primeira vez. Porquê pedir ajuda aqui? Porque o tema é precisamente sobre o que o artigo coloca em causa: a difusão de informação nas redes sociais. Adiante… poderá alguém, humildemente, indicar alguma bibliografia (recente e relevante) sobre o tema. Não apenas sobre a questão fulcral, mas sobre essa realidade que a engloba: Cibercultura, construção da Opinião Pública, blogues/redes sociais, essas realidades que no fundo estão todas interligadas e condicionam o Jornalismo e a Sociedade (eu sei…há muito material. Por isso pedia contributo com bibliografia actual e de relevância) 🙂

    1. epá Rui, essa tarefa é gigantesca…há muita coisa na net e se eu tivesse mais tempo até era gajo para perder umas horas nisso, mas não posso. mas tenho aí o teu email, por isso se me cruzar com alguma coisa posso mandar.

      posso é recomendar usares o Delicious para encontrar posts sobre o assunto, usando esses termos. Por exemplo, na minha conta http://delicious.com/alexgamela se fores à tag “socialmedia” encontras algum material, e podes começar a explorar a partir daí se fizeres uma busca usando mais tags.

      é o melhor que posso fazer agora por ti.

      Obrigado 🙂

  5. “1. as pessoas não lêem os artigos que partilham no Facebook;”

    Isso é bem verdade, e ainda para mais distorcem tudo a seu bel prazer, muitas vezes para chamar mais a atenção.

  6. Viva Alex,
    O texto que podemos ver no site. Digo isto, porque aposto que 90% das pessoas não leu mais nada, e esse pequeno excerto podia dar uma ideia mais concreta do texto todo.
    Eu apanhei esse “artigo” a circular no facebook, abri e fui ler. Só me apareceu aquele excerto ou introdução, ou seja lá o que for – que foi citado aqui no teu blog.
    Ao ler aquilo, obviamente que não posso deduzir com que bases é que o autor o diz/afirma, logo pareceu-me muito mau. É claro que é só a minha opinião, e não li o artigo completo – o que pode mudar a minha opinião facilmente.

    Acho que ele deveria ter começado com um “Segundo a sondagem xpto. as pessoas mais inteligentes (…)”

    Outra coisa é a idiotice de alterar um título da noticia e meter a circular, não entendo o propósito da adição da palavra bêbedos ao titulo do artigo.. certamente foi um daqueles jovens xico espertos sem nada para fazer

    1. Deve ter sido uma piadola, o que acho bastante legítimo por parte dos utilizadores que o fizeram. Mas esta situação levanta uma série de questões sobre a atitude e hábitos dos utilizadores e da própria gestão de informação de arquivo dos media. Estiquei-me nas provocações de propósito, mas é um assunto sério para quem se interessa pelas redes sociais e pela difusão de informação. Ou seja, pelo menos é sério para mim.

      Obrigado pela dica 😉

  7. Olhem o meu blog ali em primeiro no printscreen.
    O artigo em questão, que foi escrito no público é uma miséria… como escrevi no meu blog pessoal, não sei em que é que a pessoa estava a pensar, mas certamente não era em escrever algo decente.

    O artigo até pode ser verdadeiro, mas falta-lhe o “sumo” todo… o autor bebeu o sumo e partilhou o pacote. A partir daquele misero “artigo” ninguém tira nenhuma conclusão, pelo menos que tivesse uma explicação mínima por baixo ou os resultados de uma sondagem…

    1. Olá Joni, é por acaso que está lá e não é de forma alguma de propósito ou com o intuito de atacar seja quem for, eu aqui tenho que admitir que não passei da busca e não li nenhum dos blogs que aparecem aí. Não foi muito inteligente 😛

      Mas estás a referir-te ao artigo todo ou ao texto que podemos ver no site? Esse é o lançamento da notícia completa, que está por detrás da paywall (espero eu).

  8. Gostei do teu artigo. Faz lembrar que os americanos tinham aquela «certeza» que o que passa na TV é verdade, parece que agora a maioria das pessoas acredita que o que está na web é verdade, e mais não fazem que passar boatos e falsas verdades, ou até a tentar ganhar algo com isso. Aliás, tenho um carinho especial por aquele email que circula desde o tempo de Jesus Cristo.

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